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Diversão dos deuses

Segunda, 25 de junho de 2012 por Alexandre Fernandes | tag exibições antológicas, alquimia, perfeição, magistral

Ao ouvir jogadores atuais defenderem o jogo pragmático, o tal futebol de resultados, às vezes me confundo com o avanço da tecnologia e cogito implantações de memórias em minha mente. Tantas foram as exibições antológicas do Flamengo presenciadas por mim que me vejo tentado a considerá-las obras artificiais de um amante supremo do futebol. Após reunir o melhor de suas observações, desde o início dos tempos do violento esporte bretão, usou a sofisticação de um imperceptível dispositivo virtual para transformar sua fantasia na minha realidade.

Só assim consigo explicar a exuberância de imagens inesquecíveis, espécie de pedra filosofal futebolística. Eterno mistério da alquimia, desvendando as defesas sóbrias do Raul, a inigualável classe do Leandro, a raça contagiante do Rondinelli, os precisos desarmes do Andrade, os dribles milimétricos do Adílio, a inspiradora maestria do Júnior, os gols decisivos do Nunes, o histórico virtuosismo do Zico. Nenhum dos meus problemas, do mais insignificante ao mais complexo, conseguia resistir à Magia de uma orquestração tão harmônica. Reabastecido de energia a cada apresentação refinada de artistas especiais, via recuperada a complexidade do meu equilíbrio e da minha essência pela via simples de um jogo.

O meu bem estar tinha explicação estética e esportiva, não se restringia aos pontos na tabela ou às diversas faixas de campeão. A perfeição coreografada em dribles, deslocamentos e saltos sugeria um balé ensaiado à exaustão. A trajetória da bola de pé em pé, em curtas e longas percorridas de pontos presentes a pontos futuros, mexeu com o meu imaginário e o de milhões de incrédulas testemunhas. O final sempre se sabia inevitável, no pouso de um balão mágico no fundo das redes adversárias, como um véu cigano a embrulhar uma reveladora bola de cristal.

Quanto mais me distancio desses registros, mais eles se tornam inacreditáveis. Se mesmo ao vivê-los com intensidade o absurdo brilho de sua importância dificultava a crença em sua realização, o passar de décadas conspira contra a minha certeza. Torna-se inevitável a comparação com as gerações seguintes disfarçadas de Manto Sagrado. Nelas paira a sensação de alguma perda até nas vitórias consagradoras, aliada à esperança de um dia voltar a ver algo magistral, ainda que finito como já foi, a exemplo de tudo na vida.

Nostalgia, saudosismo ou constatação, contra os fatos não há argumentos. Parece mais fácil supor a interferência de uma força maior, uma articulação planejada pelos deuses do futebol. Devem estar se divertindo muito, seja pela minha dúvida ou pela convicção deles na existência desses áureos tempos no passado. Viajantes das eras, eles levam a vantagem do ir e vir pelas épocas. Enquanto espero dias melhores, eu me limito a passear pelas minhas lembranças, virtuais ou não. 

MAGIA NELES!
EQUIPE Magia Rubro Negra
alexandrecpf@magiarubronegra.com.br
TWITTER: @alexandrecpf



3 comentários - Clique aqui e comente


Célio Coelho - 28/06/2012 22:01:10
Evidentemente, não vivi os fastios de títulos de 1927 a 39 e 1944 a 53. Mas aquele de 1955 a 63 e 1965 a 72, sofri bem. Em 58, com todo embalo da primeira Copa, vibrei com o gol do conterrâneo Babá. Mas o empate (Roberto Pinto) era do Vasco, Super-Super. Então, muitos títulos perdemos para adversários com escalações famosas, mas éramos fortes. Hoje, estamos perdendo para escalações duvidosas de qualidade, inclusive a nossa. Reajamos!
Marcos Bidart - 25/06/2012 15:17:29
Maravilhoso o texto, pertinente o comentário do Emir. Temos uma torcida chamada Raça, mas ela precisa calçar chuteiras.
Emir - 25/06/2012 11:35:43
O pior é a covardia. Mesmo sendo o time mequetrefe que é, o Flamengo não pode ser covarde, pois esse adjetivo pejorativo nunca fez parte do nosso dicionário, nem nos idos em que nosso ataque era formado por Passarinho, Fio, Michila e Caldeira.

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