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Era o Flamengo

Segunda, 11 de abril de 2011 por Equipe Magia Rubro Negra | tag José Lins do Rego

 

Todas as cordas do meu coração se afrouxaram como se num cabo-de-guerra um dos lados cedesse, de repente. Senti-me capaz do grito da vitória e podia abrir o peito no desabafo total. Era o Flamengo na última cartada para o título que só podia ser mesmo dele. Lembrei-me de outras datas, dos anos de 1939, de 1944, na tarde gloriosa do tricampeonato. Mais uma vez dobrávamos as forças do adversário que fora um leão no estádio. Agora repetia-se o feito de 1953. Lá em baixo recolhia-se o Vasco para voltar no próximo campeonato como o rival de muitas bocas de fogo. Tudo fora feito conforme o valor da nossa gente. Éramos bicampeões legítimos, embora houvesse um chorinho de quem não tem fôlego para agüentar as horas amargas
 
Então eu pude ver a cidade na alegria maior. As estrelas faiscavam no céu e uma lua cortada ao meio aparecera bem em cima da praça de esportes, uma lua que jamais esquecerei porque viera de propósito, para beijar os heróis da contenda. E com as estrelas e a lua, a doce música carioca baixou dos morros, das praias, das ruas, para louvar aos que lhes eram os amigos do coração. Era o Flamengo no mastro da vitória, no convívio do povo que é ele próprio. Vi a alegria de uma cidade que se dava inteiramente aos seus eleitos, aos que lhe ofertaram, naquela noite de conto oriental, uma vitória soberba. Por toda parte o povo na efusão de uma alegria maciça, de uma alegria capaz de fazer esquecer as desgraças do mundo e as incertezas do Brasil. Há no Flamengo esta predestinação para ser, em certos momentos, uma válvula de escape às nossas tristezas. Quando nos apertam as dificuldades, lá vem o Flamengo e agita nas massas sofridas um pedaço de ânimo que tem a força de um remédio heróico. Ele não nos enche a barriga mas nos inunda a alma de um vigor de prodígio
 
Vinha descendo para o centro da cidade o povo na cantoria feliz, gente de todas as cores, Cadillacs arvorando bandeiras, e a "moçada" do debique de inveja, no ruído consagrador do triunfo. Não era uma classe, nem uma raça, que se rejubilava. Era aquilo que se chama povo que é mais alguma coisa que as massas. Era o meu Flamengo, na sua universalidade brasileira, clube que não tem donos ricos nem pobres que reclamam. Todos só querem o Flamengo na ponta. E, quando nos infligem derrotas, não nos entregamos ao pessimismo molengo. Ao contrário, crescemos na adversidade. E não nos degradam as lutas internas que nos possam conduzir a sucessões suicidas. Brigamos em família para nos unirmos nos momentos precisos, nas horas de borrasca. Quando contra nós se acirram os ódios, os flamengos se fazem um bloco que a tudo resiste
 
Passava-me tudo isto pela cabeça na interrupção do tráfego. A conquista do título me saturava a alma, dando-me sangue-frio para olhar o Flamengo em corpo inteiro. Lá ia ele, na negrada dos morros, nos automóveis caros, no entusiasmo de uma classe média que o tinha na conta de um bem de família. O Flamengo campeão, era mais alguma coisa que um feito esportivo; era uma alegria nacional. Não há exageros naquela hora. Por todo o Brasil, dos territórios aos confins do Rio Grande, havia gente assim como aqueles que batiam nos tambores com o coração lavado de júbilo pela glória daquela noite. Flamengo! a cidade inteira gritava. Lá havia flamengos pelas ruas, pelas janelas, pelos cafés. O Rio de Janeiro, na noite quente de Fevereiro, cantava, bebia, dançava, para festejar seu clube, como se fosse um santo padroeiro. Era o Flamengo.
 
*Artigo escrito por José Lins do Rego por ocasião do Bicampeonato Carioca 53-54, publicado no jornal O Globo de 5/2/1965 e lido por Patrícia Amorim durante a cerimônia em homenagem aos 110 anos do nascimento do autor na Academia Brasileira de letras em 11/4/2011.


4 comentários - Clique aqui e comente


BARBOSA/ARACAJU - 13/06/2011 16:24:36
FLAMENGO UM AMOR SEM FRONTEIRAS... LINDO... MARAVILHOSO...ETERENAMENTE FLAMENGO...
lemos - 15/05/2011 00:09:01
É o Flamengo da Academia Brasileira de Letras,é o Flamengo daqueles que
somente conhece uma letra, quando fazemos um gol de letra.Simbolo de grandiosidade eterna.SRN
André Montalvão - 12/04/2011 15:50:46
Lindo, lindo, lindo. De arrepiar o texto, de verdade. Como diria o R10, Flamengo é o Flamengo.
Jussara - 12/04/2011 08:17:23
É...explicado pq a Patricia se emocionou ao ler um trecho desse artigo! Eu já tinha lido há alguns anos, e me emocionei novamente...perfeito!
Os anos se passaram e nada mudou, não é?! "Lá em baixo recolhia-se o Vasco", e é onde ainda se recolhe! ;)

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